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"relicário de cuspes" e a dor surrealista das palavras




Depois de impressionar o público leitor com criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos (Mondrongo, 2021), Leonardo Valente publica um novo romance em que o trabalho estético aprumado e o aspecto caleidoscópico do texto voltam a desafiar quem entra em contato com suas páginas. Em relicário de cuspes (Besouros Abstêmios, 2023) o autor fluminense aposta novamente na complexidade identitária de quem protagoniza o escrito, provando que os personagens são o centro irradiador de suas histórias, mais do que qualquer outro elemento narrativo. O protagonista da vez é um homem que assiste ao menino que costumava ser, um náufrago em si mesmo que faz “da dor existencial de uma finitude abrupta simulada” a própria tinta do relato, confirmando a nota introdutória do romance: “neste livro, interessa menos o que a palavra diz e muito mais o quanto machuca”. No avançar da trama, fica evidente a intenção de mostrar o quanto o verbo é capaz de ferir.


Uma crise de pânico desencadeia no protagonista o resgate de um passado doloroso, por muito tempo soterrado na memória. Esse movimento de revelação assume ares de sessões psicanalíticas, como se o homem de meia-idade buscasse a cura da criança que foi ao revisitar verbalmente regiões abissais de sua trajetória interior. O livro tem uma galeria enxuta de personagens explorados pela ótica daquele que sofre: o homem e o menino, que levam o nome de Carino; Yolanda, a mulher com quem ele conversa; a porta com placa de mãe; o pai e a tia, todos apresentados como dimensões do próprio narrador, projeções internas do protagonista que procura pacificar o passado pelo temido exercício de rememoração e nomeação do acontecido. O núcleo familiar disfuncional fez da infância do menino um verdadeiro horror, reproduzindo uma série de comportamentos nocivos que o marcam definitivamente e que ele segue recalcando na vida adulta – até então, uma vez que a narrativa começa justamente pelo enfrentamento tão adiado das agressões sofridas.



Para realizar esse intento, Carino se afunda no próprio inconsciente, e a estrutura do romance – que engloba essas imersões, marcadas por repetições obsessivas muito pertinentes ao registro da inconsciência; o respiro no presente, não menos desesperador, mas um pouco mais lúcido; as lembranças dos inúmeros interditos e repreensões sofridas; e as marcações textuais do choro por muito tempo represado – vai dando o contorno às incursões memorialísticas do narrador. Segundo o autor, em entrevista concedida ao LiteraTamy, “no transcorrer da narrativa, o que a gente vai perceber é uma diminuição gradativa da censura, e uma capacidade de traduzir o que vinha do consciente no racional, do que havia acontecido em palavras”. O resultado dessa configuração narrativa, que aposta firmemente na sinestesia para provocar emoções intensas, é um tanto ousado, pois produz um texto bastante cifrado, povoado por objetos domésticos carregados de sentidos violentos e símbolos lisérgicos como girassóis, peixes-crucifixos, jangadas, o próprio mar-inconsciente etc., que dependem especialmente da disposição de quem lê para serem desvendados. Muitos deles representam a culpa ligada à religiosidade atuante sobre os personagens, e assim a figuração do trauma vai se compondo por uma rede intrincada de signos. Tudo isso dota o texto de um caráter surrealista impressionante, sobretudo pelas imagens produzidas inconscientemente e que são mais ou menos elaboradas pelo discurso.


Carino tem um bloqueio tremendo em relação às lembranças paternas, as quais ele acessa aos poucos com a ajuda de Yolanda, personagem misteriosa e fascinante, num processo que desponta rancores e raivas, e que apresenta uma realidade em que a dor é o meio e o fim, a norma de existência de um homem com inúmeros sofrimentos silenciados em si, com medo até das palavras. No romance anterior de Valente, a questão das palavras, principalmente aquelas que designam os seres humanos, já estava posicionada centralmente na figura da protagonista D., chamada dessa forma enigmática porque para ela interessava sobretudo a indefinição. Em relicário de cuspes, o nome também possui uma carga extraordinária, e Carino passa grande parte do relato tentando enfim encontrar os termos que nomeiam os agentes dos seus traumas. No entanto, o movimento se dá ao contrário, porque o que este romance persegue é o fim da indefinição, a libertação que só o nome, enquanto elemento definidor, poderia proporcionar.


As palavras proferidas por determinadas figuras da narrativa são cuspes-pedras, como armas pontiagudas acertando o protagonista, fazendo da comunicação entre os personagens um verdadeiro campo de batalha do qual Carino, por um longo tempo, se desvencilha. O título do livro, no entanto, as coloca num relicário – objeto também simbólico na trama –, sustentando o romance sobre a ambiguidade de empenhar-se em fugir do impacto duro das palavras enquanto as cultiva como relíquias formativas do eu. Assim Leonardo Valente escreve a jornada para enxergar com clareza distintiva o que é fora e o que é dentro, como um mergulho restaurativo numa tela surrealista na qual cada um de nós se vê, em alguma proporção, retratado.


>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


Assista à entrevista com o autor no canal do LiteraTamy:


 
Foto de Tamy Ghannam

Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


 

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