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Mergulho sem máscara em poço de desejos: "Encontros de neve e sol", primeiro romance de Ilana Eleá


Recorte da capa do livro

Morando há poucos meses na Suécia, a carioca Ilana sente a agonia do frio rigoroso — tão destoante do clima quente da cidade onde nasceu — e as dificuldades de lidar com um idioma desconhecido, em tudo distinto de sua língua materna. Nesse contexto de inadaptação quase total começa Encontros de neve e sol, primeiro romance de Ilana Eleá, publicado pela e-galáxia em 2018. De Estocolmo, a narrativa retorna ao Rio de Janeiro, num passeio geográfico-temporal que toma como condutor o grande responsável pelas mudanças na vida da protagonista: o amor, aqui representado por Johan.


Depois de um capítulo inicial composto por informações esparsas, o livro passa à consistência da história desenrolada cronologicamente nos capítulos seguintes. Anos antes, Ilana e Johan se conhecem num site de relacionamentos e, topa-tudo como são (uma das várias características que compartilham, ainda que sejam diferentes em muitos aspectos), decidem transportar a incipiente relação para o plano do real. Não leva muito tempo para que o seu primeiro encontro, ocorrido em terras brasileiras, se desenvolva em um relacionamento cuja intensidade surpreende os dois — mas não os paralisa. Se o medo de se entregar um ao outro existe, aos poucos vai sendo superado pelo desejo mútuo de experimentar integralmente um sentimento que vale o risco.


Capa do livro, garota de vestido vermelho sentada lendo sobre um fundo azul com avião no céu

A narrativa em primeira pessoa traz miradas ao passado traumático das vivências de Ilana, pairando sobre o presente na forma do receio de se abrir novamente ao amor, apreensão que, no entanto, nunca sobressai à valentia da protagonista para se dispor às surpresas do destino. Um tanto chegada à liberdade, a coragem da personagem em muito corresponde à da própria autora, que faz do exercício de autoficção um estímulo dobrado à imaginação leitora, duplicidade que tempera o romance. Ilana expõe as próprias inseguranças, mentais e corporais, de modo a destacar o valor universal das suas questões particulares. Enquanto isso, vai descobrindo, e nos apresentando, quem é Johan, figura sedutora não só pelos atributos físicos extraordinários, como o olhar heterocromado que a protagonista admite como amuleto, mas sobretudo pela receptividade com que acolhe a amada, por ser um homem compreensível, capaz de cultivar amizades longevas com outras mulheres, alguém com quem é possível conversar sobre qualquer assunto; que não é perfeito nem finge sê-lo, mas a recebe de braços abertos em seu círculo social, preparado para sanar quaisquer incômodos, permitindo que Ilana seja quem é por completo — “o homem louro envolvia a minha cintura, mas era como se abraçasse a minha história, a minha travessia, as inteirezas da minha narrativa, o que eu tinha sido como parte do que sou”.


Nesse movimento de desnudamento pluridimensional, a protagonista restitui a sua capacidade de tentar outra vez, estabelecendo com Johan uma conexão rara. Para descrevê-la, a autora se vale de um jogo de dualidade entre o frio e o calor — evidente no título da obra — que seguirá como tônica em seus livros posteriores, impresso não só na constituição de seus personagens principais, como também, e especialmente, nos espaços pelos quais eles transitam. A começar pelo Rio de Janeiro e seus passeios ensolarados, cidade pulsante de uma ancestralidade que liga ininterruptamente Ilana às mulheres de sua família, as avós e a mãe, origens múltiplas e fortes que a encorajam a seguir o próprio caminho, decidindo-se com autonomia e bravura diante das encruzilhadas da vida. Tamanha é a influência dessas figuras sobre a narradora que, em dado momento, ela afirma: “A história das mulheres das quais eu descendo me fortalecia, orgulhava. Eu quase era elas todas, bravas, enigmáticas, lunares, extremas”. Além da interação subjetiva da protagonista com o território carioca, pátria do fogo incessante que a aquece internamente, também está presente no romance a verdade coletiva desse local e das estruturas sociais que o organizam, muitas vezes em disposições que alimentam desigualdades produtoras de violências cotidianas, como os crimes e assédios tão comuns no Brasil. Essa exploração da terra natal cartografa a importância da base para a formação e o deslocamento dos sujeitos no mundo, lembrando Ilana de nunca afastar-se dela por completo.


A baixa temperatura, por outro lado, tem como representante a Suécia, onde a segunda parte do romance acontece. E não facilmente: a protagonista enfrenta uma verdadeira odisseia para chegar lá e, quando chega, tem de lidar com a inadequação da estrangeira cuja identidade estremece, escorregadia feito o gelo que lhe serve de solo e no qual, por grande parte da trama, ela é incapaz de firmar os pés. O problema linguístico abala fortemente sua identidade e o distanciamento do idioma materno provoca uma lacuna complicada de suplantar. Somada à solidão natural das circunstâncias e à violência social que, mesmo fora do Brasil, interrompe por alguns momentos o conto de fadas de Johan e Ilana — a brasileira sofre xenofobia e logo aprende que “a Suécia não paira acima de podridões, aqui pode feder e fede em certos becos, em ilhas distantes” —, a angústia que acomete a protagonista nos primeiros trechos do romance tem suas raízes elaboradas no decorrer da narrativa: “Eu ainda não tinha colocado os pés em vidas passadas, eu simplesmente não reconhecia e não conseguia me reconhecer naquela bonita exatidão e por isso eu engolia em seco, sem ar. Que cidade era essa, tão fria?”.


Mas, como não está sozinha, com a ajuda do companheiro o medo da frieza desconhecida vai se transformando em oportunidade de encontrar partes inexploradas de si (como a da Ilana iletrada, por exemplo) e do outro. Os caminhos do romance permitem que os dois integrantes do casal contem a si mesmos através de seus países de origem, num diálogo interessante entre personagem e lugar, até que a sensação de nunca ter existido naquele cenário seja gradativamente deixada para trás e um novo eu se forme da união de opostos. O fortalecimento dessa comunhão vem pelas vias do erótico — característica das demais produções de Eleá —, mais sutil e delicado neste romance inaugural, aproveitado não como um fim, e sim como via importante da travessia que é uma história de amor como esta. Delicado e harmônico, mas definitivamente transformador, o erotismo amplia as identidades de Ilana e Johan, comungando frio e calor até o alcance da atmosfera ideal para que uma nova e confortável forma de vida se estabeleça entre sujeitos dispostos a aceitar um ao outro sem resistência, o corpo feito “casa acesa no inverno do reencontro”.


Escrito com o comprometimento que só a verdadeira paixão provoca, o livro todo é uma espécie de declaração de amor, generoso em ceder espaço não apenas a Johan, mas a todas as pessoas que contribuem para climatizar a vida da narradora e os lugares que frequenta. Em seu curso sentimental, é como se Ilana desenhasse, sem saber, a curva de seu próprio morgondopp, o mergulho na água fria da manhã que a família de Johan tem o costume de adotar como primeira atividade dos dias de verão. Esse salto de corpo quente na imensidão gelada do mistério, verdadeiro encontro de neve e sol, é o símbolo maior da entrega absoluta às possibilidades que o sentimento amoroso oferece, condição para que ele seja experimentado de forma genuína e que garante à protagonista a tão almejada experiência bem-sucedida de uma relação equilibrada e cativante. Afinal de contas, o que é o amor senão mergulhar sem máscara em poço de desejos?

 

>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


 
Foto de Tamy Ghannam

Tamlyn Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


 

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