"Ainda que a terra se abra" – é hora de voltar para casa



Oito anos após deixar a residência paterna no sul do país em direção ao trabalho de professor universitário em Brasília, carregando nas costas o impacto de um acidente familiar que custou a vida de sua mãe, Martín regressa por circunstâncias não menos trágicas: a morte do pai. Mesmo que não seja uma grande novidade para a literatura a premissa de forte carga alegórica do filho que retorna ao lar de origem e tem de encarar a conturbada imagem patriarcal, Ainda que a terra se abra (Taverna, 2020) sorve dela apenas o necessário para contornar os conflitos internos do protagonista sem comprometer suas particularidades, de modo a conduzir a dinâmica de aproximação entre tradição e inovação que se reproduz em vários níveis na novela de R. Tavares.


Aqui muito se diz pelo entorno, e não unicamente pelos espaços físicos que comportam os personagens, a cidadezinha e a estância que reforçam consideravelmente o efeito de desencaixe do protagonista, mas também por descrições narrativas que atravessam a trama sem afetação, com aparente dispensabilidade. Pelos latidos agressivos dos cachorros, pelo matagal denso que engole a casa vizinha, pela disposição inusitada dos móveis, o desconforto nas entrelinhas mostra como Martín deixou de ser alguém dali, como talvez nunca tenha sido – e como ele deixa de sentir-se parte da família também. O enredo se constrói em consonância à sua personalidade, um personagem à primeira vista bastante centrado, tanto por estar muito bem colocado na capital do país quanto por preferir sempre o que é “correto” em nome da lei, o preto no branco, sem margem para erros. Dessa rigidez ele caminha ao afrouxamento um tanto quanto inconsciente, que a narrativa, por sua vez, acompanha de modo desperto. O moralismo não resiste a longo prazo (vai por água abaixo quando o assunto é sua relação com as mulheres, por exemplo – e aqui cabe dizer que o protagonista é dotado de certo sex appeal pouco convincente) e nem tampouco a centralidade, já que dentro da família seu lugar é às margens.


O acidente mudou tudo em sua vida. Os cartões não se repetiram; alegres almoços de domingo, não se repetiram, festas de dias mães, nunca mais; nem festas de aniversário para os colegas, nem para a família. Tudo isso acabou junto com a mãe. Como se a relação deles também fosse de pele, carne, músculos, veias e ossos – atravessados por um carro qualquer. (p. 62)

Embora a morte da mãe seja um trauma difícil de superar, afetando todos os relacionamentos de Martín, sobretudo os sanguíneos, o acidente não é a causa do distanciamento quase definitivo entre ele e o restante da família. Sua defesa inflexível da Justiça com j maiúsculo que, ele acredita, lhe garante certa integridade elevada, não só o impele ao estudo do Direito como também é “o estopim da sua partida”, a verdadeira responsável por erguer o muro que ele deve escalar quando volta para solucionar a partilha dos bens paternos. De início, isso é tudo o que sabemos acerca de seu afastamento e das complicações que dificultam o retorno, e por boa parte da narrativa um embaraço permanece implícito. Paira o mistério de uma situação mal resolvida em um contexto de tamanho distanciamento que tudo perde contorno, especialmente Aramis Levrero, o pai de cujo rosto Martín nem consegue se lembrar. Dele fica simplesmente a ausência, presente como uma sombra difusa a espreitar sua estada. Também é opressivo o peso do passado e das possibilidades que não se concretizaram, embolando o que aconteceu e o que não pôde acontecer em um nó que forma a estranha culpa que o caracteriza. Essa culpa embala seu sono, acompanha seus andares pelo mundo e sua vinda ao lar paterno, entre ela e Martín se estabelece um vínculo de familiaridade tão sólido que ultrapassa a frigidez dos elos sanguíneos que o conectam ao velho Aramis.


Se a figura de Aramis é turva na memória de Martin, ela adquire densidade pela narrativa que não só captura detalhes com destreza, como também os comparte com perspicácia, reservando ao leitor um lugar muito próximo ao do protagonista sob a sombra desse pai que já não é, ecoando pela casa que o exala em cada poro. Nesse ponto a determinação espacial é vital, uma vez que o narrador retira da estância e daqueles que a frequentam os elementos que amparam a recomposição da fisionomia de Aramis, como se pelos cômodos a voz do patriarca ressoasse, vívida. Mais do que mera representação, a novela estrutura uma figuração precisa da presença paterna. Do pai Martín pode ter esquecido o rosto, mas lembra do resto, de que “o velho sempre fazia tudo melhor que os outros” e do quanto tê-lo como referência o pressiona até impulsioná-lo para longe. Conforme se estende o contato com a habitação agora gerida pela irmã Bibiana, aprofundam-se em Martín as ligações com Aramis, que assim recupera seus traços junto das formas da situação-limite que o afastou. Do alto de sua suposta superioridade moral, o filho fora incapaz de considerar as decisões do outro, agindo de forma arbitrária como a vizinhança mesquinha que ele tanto criticava, sob os jugos da egolatria. Os reencontros inevitáveis que a viagem promove o surpreendem com a vida ativa que ele enxerga ali, no local que em seus pensamentos permaneceu intocado, inalterado e, portanto, atrasado. Dos efeitos da intervenção humana nos pampas gaúchos à maneira habilidosa e competente com que a irmã, até então estigmatizada pela perspectiva redutora de Martín, toma as rédeas de situações desafiadoras, em grau macro e micro tudo prova que o verdadeiro atraso residia em sua própria visão do passado e do contexto que envolvia sua família. Com isso, o justo se mostra injusto. Somente quando se reaproxima do próprio reflexo, movimento por tanto tempo evitado, é que Martín reconhece em si as próprias falhas, tornando-se assim mais tolerante com as falhas paternas.


O jeito um pouco abrupto das coisas se ajeitarem ao final do enredo reforça uma constante na literatura de Tavares – a noção de que o que vale mesmo é a viagem. Naturalmente, a ideia de retorno pressupõe deslocamento e a narrativa passa pelos nossos olhos como se a enxergássemos de dentro de um carro, pela janela do automóvel em movimento, captando tão somente aquilo que o motorista-narrador nos deixa apanhar enquanto determina a velocidade média do relato, ora com o pé no acelerador, ora puxando o freio, num passeio entre borrões e solidez. Ele ordena o ritmo com maestria para que se chegue com segurança ao destino, este também designado por ele. Nesse veículo narrativo, o leitor senta-se ao lado do protagonista e eles se movem juntos, suscetíveis às mesmas impressões de viagem. Dessa forma, há o que permaneça indistinto até o momento em que finalmente se lança o farol, prologando-se a tensão da história e a expectativa de se chegar ao ponto. O autor tem mão boa para construir a narrativa, estabelecer as paradas obrigatórias de beira de estrada e as paragens que se deve evitar.


Na ida, Martín é um estranho no ninho, um estrangeiro. A gradual reintegração no seio familiar é marcada pela sua relação com os objetos domésticos, pelo recebimento das roupas do pai na própria pele, pelo assento da poltrona paterna em que seu corpo se encaixa como se dentro de um abraço. Tudo isso faz de Ainda que a terra se abra mais do que um livro sobre retorno, ou seja, sobre ir ao reencontro do passado, faz dele um livro sobre heranças, sobre o fluxo contrário de aceitar que suas origens venham ao seu encontro, um livro sobre reconciliação. Não por acaso seu título faz menção a uma passagem simbólica do entendimento entre pai e filho, ao único momento da novela em que Aramis toma o discurso e fala diretamente com Martín, numa bela demonstração de que o pai, na verdade, esteve presente o tempo todo, que sem ele nem sequer haveria narrativa.


Contempla sua imagem no espelho. Quem está ali é uma versão mais nova do Aramis. Somente agora entende que tem o rosto de seu pai, as mãos, os braços, as pernas. O peito forte, cheio de cabelos, a barriga que começa a ganhar volume e até mesmo a panturrilha, grossa, que precisa de botas sob medida. Tudo em si é uma continuação do pai, que assim persevera, teimoso. Até mesmo nos pensamentos, ditos ou frases feitas, nas reflexões mais banais, pode encontrar a voz do pai. (p. 134)

A bela edição da editora Taverna traz na capa sóbria e moderna uma rodovia, antecipando o clima de viagem que condiciona a novela. Com ela, Tavares consolida o percurso como tema geral de sua escrita, processo que despontava em seu livro anterior, Andarilhos, a cujo protagonista, Pedro Guarany, também interessava mais o passeio do que o destino final. Ainda que a terra se abra é um novo pilar nas estruturas consistentes da literatura de um autor ainda jovem, mas orientado por uma espécie de bússola que aponta determinados princípios como norte. Assim, mesmo que em caminhos bastante diferentes, ele não se perde no mapa.


>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:



Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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