"Terra úmida", de Myriam Scotti, e a família como solo espelhado




Terra úmida (Penalux, 2021), da manauara Myriam Scotti, tem início em 1958 com o rememorar de Abner, narrador cuja memória projeta no texto a vasta floresta amazônica, lugar onde viveu durante boa parte da vida depois de deixar o Marrocos para fugir da perseguição muçulmana aos judeus. A família sefardita de quatro membros — o pai Jonah, a mãe Syme, o primogênito Abner e o caçula Isaac — sai da cidade de Tânger assim que o protagonista completa treze anos de idade, logo após sua festa de Bar Mitzva. A tristeza de deixar o próprio lar pelas promessas de prosperidade, segurança e liberdade religiosa ofertadas pelo Amazonas aos poucos abre espaço à conciliação com a nova terra, o porto de Manaus tornando-se refúgio sobre um pano de fundo histórico que resgata tanto as dificuldades da comunidade judaica no país árabe quanto as condições precárias do trabalho nos seringais amazônicos.


Parece haver algo de mágico no rio Negro descrito por Abner, na Amazônia que inebria os homens enquanto Syme resiste a seus encantos como quem evita trair as origens. Jonah, por outro lado, seduzido pela possibilidade de tornar-se um regatão, mercador que percorre os rios de barco para vender nos povoados os itens de seu armazém flutuante, leva os filhos consigo nos passeios pelas águas encantadoras que cortam a região, com a esperança de que eles sigam seus passos na profissão. Abner, no entanto, deseja comandar grandes navegações e, ao desapontar o pai com sua escolha, distancia-se dos laços de cumplicidade com seus familiares, reforçando também o quê de caímico que caracteriza sua relação com o irmão, amiúde apresentado em termos de comparação, sempre superior aos olhos do protagonista.


Mas o ente familiar que realmente se destaca no romance é a mãe, incapaz de compreender que Abner a amava, mas amava também os rios abundantes que lhe ofereciam a paz poucas vezes disponível em casa. Pelo olhar do filho mais velho Syme surge como mulher controladora, dominadora, dona das escolhas da família, lançando-se insistente sobre toda a sua ideia de futuro — isso enquanto Jonah, o pai, aparece como marido incompreendido e injustiçado pela esposa que censura seu ofício nos rios. Essa mirada excessiva e um tanto dura sobre a mãe, perenamente reiterando o quanto ela era péssima por não corresponder aos ideais da “figura materna” que supostamente deveria encarnar, só se alivia com a aproximação de sua morte, quando Syme, adoentada e sozinha há dias porque os homens viajavam pelas águas, pede perdão ao primogênito por não ter concedido aos filhos o afeto que mereciam.


“Aqueles dias sozinho com mamãe, assistindo-a definhar, fora a oportunidade que ela me deu para pensar em como deviam ter sido difíceis os seus dias naquela casa sem a gente, logo ela que fora criada rodeada de tantas pessoas da família, viu-se obrigada a passar semanas na solidão, enquanto desbravávamos esta terra que aprendemos a amar – ainda que muitas vezes eu tenha ficado para fazer companhia à Ima.” (p. 29)

A iminência dessa morte faz com que Abner encare de outro modo a própria existência, como quem se olha no espelho pela primeira vez em anos, talvez na vida. O reconhecimento do vazio que toma conta de tudo com a partida da mãe joga luz sobre o invisível do trabalho doméstico realizado por ela, o qual ordenava todo o funcionamento do seio familiar. A morte de Syme é portanto a morte da ordem, e instaura uma sensação de falta feito herança compulsória sanguineamente transferida, sensação que Abner começa a adquirir enquanto o fenecimento ainda toma forma frente a seus olhos e em seu relato. O óbito é um choque que desperta arrependimentos, culpas e a impossibilidade de seguir o próprio caminho sem a sombra da influência materna que resiste ao seu desaparecimento, esboçando-se até mesmo sobre as mulheres errantes pelos caminhos de Abner no decorrer do livro. Evocar o passado passa a ser uma estratégia de cuidado da alma enfraquecida pela perda, exercício facilitado por um presente providencial que Syme deixa aos filhos: os seus diários.


Mais do que apenas um pedido de desculpa, antes de partir Syme garante o acesso a uma verdade inimaginada, a entrada aos recônditos de seu ser, uma das poucas escolhas que ela pode tomar por conta própria. Disputando protagonismo com Abner, a personagem endereça os diários a ele e ao caçula, toma a palavra e enfim se dá a conhecer por meio dos cadernos, unindo os filhos enquanto cúmplices de seus segredos. Das muitas descobertas presentes em seus textos, a dimensão impenetrável da condição feminina, com todos os encargos e limitações, é a que se ergue com mais fortes contornos. A carência de autonomia, incentivada pela necessidade de manter-se alinhada à tradição, aponta a felicidade como mero bônus, que pode vir ou não, do cumprimento de seus deveres de mulher, estes sim prioritários. O casamento indesejado, a gravidez pavorosa seguida pela maternidade e suas responsabilidades, o nascimento de Abner e seus efeitos sobre a jovem cansada são alguns dos dados que os diários cumprem transmitir, num movimento emocionante de revelação do eu e do outro que são mãe e filho. Além de tal entendimento do impensável, destaca-se também o reconhecimento das semelhanças que aproximam e reconciliam Abner e Syme. Os diários são um espaço de liberdade possível, a oportunidade de expressar sem rodeios o que há de mais íntimo no interior de quem escreve, sendo, portanto, o formato ideal para expor os contrassensos de uma personagem tão complexa como Syme e para promover algum grau de compreensão do filho sobre ela, o que até então fora inédito no relacionamento dos dois. Assim ele descobre na mãe uma mulher que não chegou a conhecer, mas que em alguma medida passa, enfim, a entender.


Na terceira e última parte da obra, verdadeiro ponto de virada da trama, Abner retorna como narrador mais lúcido e consciente dos atributos especulares das relações familiares, espelhos nos quais os sujeitos se refletem labirínticos como são, e não tão chapados quanto o protagonista acreditava que fossem, mas ao contrário, profundos como as águas infindáveis do rio Negro que umedecem os arredores, contaminando os personagens. Nessa retomada, sua relação com o pai e com o irmão ganha outros traços, bem como a ideia de cumplicidade tão aspirada por ele; tudo se desromantiza. Em determinada altura da narrativa, Abner observa a escuridão que avança conectando os horizontes de céu e rio em um único pretume, cena que estampa seu movimento de comunhão com a mãe, combinação também ofertada pelos pontos de escuridão integrantes de suas personalidades e trajetórias, e que devem ser aceitos como parte do todo. O título Terra úmida, que num primeiro momento referencia a região amazônica em que a história tem lugar, desdobra-se em significados, fértil como a imagem que traduz: se família é solo úbere e espelhado, produtor de frutos dos mais surpreendentes, a literatura de Myriam Scotti também o é.


>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:



 

Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


 

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