"Emma e o sexo": é possível controlar o desejo?




Emma e o sexo, de Ilana Eleá, é o volume inicial de uma trilogia erótica publicada pela editora e-galáxia. A protagonista, que empresta o nome ao título da novela, é uma jovem antropóloga social especialista em sexualidade, que parte da Universidade de Estocolmo, na Suécia, onde nasceu, para o Rio de Janeiro, cenário da obra, a fim de realizar o trabalho de campo de sua pesquisa de mestrado, projeto que “seguia em busca de definições de amor, sexo, desejo e paixão em relações contemporâneas” nos dois países, sob a perspectiva de mulheres autodenominadas empoderadas.


Filha de mãe sueca declaradamente progressista e pai brasileiro conservador, Emma é fruto da união de dois opostos, produto de um encontro inusitado e conflituoso que faz seu sangue mestiço fluir pendular entre a libertinagem e o recato, contradições que vertem por todas as fendas da trama. A personagem é a um só tempo Norte e Sul, dentro dela a fria Estocolmo e o caloroso Rio de Janeiro pulsam não como complementares, mas como inimigos, elementos contrários em disputa num mesmo indivíduo que, no contexto da narrativa, encontra-se na dupla condição de profissional e ser pleno de desejos, tendo de contê-los em prol da integridade da pesquisa que empreende. Mulher de duas faces, ela busca o equilíbrio que talvez só encontre patinando ao ar livre, quando consegue combinar “a graça da patinação artística no gelo com o ritmo da patinação urbana sobre superfícies irregulares”, seu caráter ambíguo vibrando pelos mais inofensivos traços da narrativa.



A primeira dos três sujeitos de estudo, foco deste tomo inaugural da série, é Juliana, profissional do sexo on-line que conduz as alunas, todas elas mulheres cisgênero (até onde sabemos), pelos caminhos do sagrado feminino e do pompoarismo como canais de autoconhecimento, oportunidades de conhecer, pelo erotismo, pedaços de si que por diferentes razões possam estar adormecidos, inexplorados e, portanto, enfraquecidos. Ela mantém um relacionamento aberto com Nicolas, formando o par que acompanhará Emma nos passeios pela capital carioca e suas festas sensuais, a partir dos quais despontarão discussões sérias e não romantizadas acerca de diversas temáticas concernentes ao sexo, como o pornô feminista e o próprio amor livre, muitas vezes com viés liberal e sempre dentro de um recorte de classe bastante específico e demarcado. Conforme se envolve com o casal recém-conhecido, Emma perigosamente aproxima sua função de pesquisadora ao papel de voyeur das aventuras sexuais que registra, e a narrativa em terceira pessoa, colada ao olhar da antropóloga sobre as coisas, faz o mesmo com seus leitores.


A protagonista teoriza os próprios desejos antes de se permitir senti-los, e sua dubiedade se exibe com grande efeito nesse momento de investigação empírica, expondo, inclusive, as limitações que possui em vários âmbitos da sexualidade. Um dos exemplos é a sua dificuldade em pensar fora de uma lógica monogâmica; Emma tem um namorado na Suécia e carrega culpa pela atração que porventura sente por outras pessoas, como se a mera libido, insubmissa por natureza, fosse uma traição que comprometesse a verdade dos relacionamentos. Além disso, mesmo consciente das armadilhas que os estereótipos corporais pregam, a antropóloga não deixa de hiperssexualizar pessoas racializadas. Essas, no entanto, são questões móveis, que se desenvolvem por caminhos improváveis à medida que a narrativa avança. O fato é que a personalidade de Emma é o centro solar do enredo, de onde irradiam múltiplos feixes de luz que a narrativa não se furta de explorar. Um dos mais evidenciados embates gerados por ela é o que se dá entre pesquisadora de sexualidades e praticante do sexo, de maneira que as duas não podem, jamais, coexistir. Em seus esforços para atingir certa neutralidade tipicamente sueca, Emma se vê às voltas com dilemas morais que não se resolvem, apenas são adiados.


Nesse ponto, a fantasia enquanto vestimenta mostra-se aliada da concretização de vontades sexuais, levando a protagonista de observadora a agente, experiência que gera situações de impasse e reflexões sobre ética, além de reforçar a carga dramática que eletriza a trama. O vocabulário da narrativa também acompanha o progresso das tensões promovidas pelo despertar do desejo indomável de Emma, munindo-se de termos e metáforas que fazem do erótico não só um tema, mas uma forma de contar, resgatando certa conexão entre a personagem principal e símbolos da natureza que, tal qual a sexualidade, têm qualquer coisa de primitivo e selvagem.


Embora excessivamente centrada em personagens cisnormativas e alinhadas ao padrão de beleza que aparta corpos dissidentes, a obra triunfa quando destaca a importância das pesquisas científicas e do empirismo na ampliação do campo de visão sobre o mundo, quando não se aliena da realidade social dos espaços onde localiza seu enredo e de como ela influi sobre os sujeitos, sua sexualidade e seus modos de encará-la e exercê-la. Se no decorrer do livro Emma tenta conter seus desejos, a nós resta tentar controlar a vontade de saber por onde (e com quem) ela andará nos próximos volumes da trilogia.



>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:



Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.



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