"A filha primitiva": escrever como um parto infinito e a criação literária como maneira de dar à luz




Primeiro de tudo: o parto. Das dores de parir uma menina num mundo que dedica tantas violências ao feminino nasce a história da mulher inominada que narra A filha primitiva, primeiro romance de Vanessa Passos. Professora de literatura, quase como a autora, a protagonista remói as mágoas que sente em relação à mãe por não revelar de modo algum quem é o seu pai. A ausência da figura paterna talha uma lacuna identitária que ela vai atrás de preencher por meio da escrita, percurso descrito nos capítulos curtos e ágeis do livro.


Três gerações de fêmeas sem nome formam o círculo inquebrantável que circunda a trama, filha, mãe e avó, uma sendo o prolongamento da outra. A mais velha, mulher de poucos recursos, agarra-se à fé cristã como a uma tábua de salvação, e ao mesmo tempo que se nega a revelar qualquer informação sobre as origens de sua unigênita, encarrega-se de insistir que, desde a infância, ela esteja sempre próxima do papel e da caneta, do letramento que no futuro será não só uma possibilidade de aceder a realidades mais vantajosas que as suas (a formação acadêmica defendida com unhas e dentes pela avó, dela privada), como também chave de acesso à sua própria identidade. Ancorada no escrever, cética até o último fio de cabelo e movida por um desejo incansável e inconsequente em direção à descoberta de si, a narradora leva tempo a perceber que as feridas de ser mulher fazem-na muito mais próxima de sua mãe do que ela se dispõe a admitir.


“Esquece tudo o que eu falei e lê. Não quero sua mão engelhando feito a minha de tanto lavar roupa pros outros. Quero tua mão cheia de calo de tanto escrever e tua vista cansada de ler. Toma, pega logo esse livro. Anda, tira o lápis e o caderno da bolsa e escreve teu nome completo dez vezes. Não, dez é pouco, cinquenta. Depois escreve o meu também.”

Muitos dos desacordos no relacionamento das duas brotam justamente da conexão inescapável entre elas, complexidade que a narrativa não se furta de incorporar. Sem dúvidas há qualquer coisa de antediluviano nessa representação familiar intrincada, repleta de conflitos e ressentimentos, mas existe algo de sui generis que, além de se destacar, mobiliza todo o nó do romance: a raiva no texto. O jeito com que as raízes da personalidade da narradora se revelam através da ira é um ponto alto e tem função fundamental no desenvolvimento do enredo, especialmente porque a fúria que caracteriza sua recusa em ser mãe e em ser filha é da mesma forma determinante para que ela enfim se reconheça nesses mesmos papeis.


O caminho até esse reconhecimento é árduo e, não raro, censurável, afinal de contas, como ser mãe sem antes ser filha, sabendo pouco de quem se é, sem um espelho no qual possa se contemplar? A protagonista encontra as respostas na escrita, vai se descobrindo enquanto escreve, surpreendentemente inspirada pela criança que botou no mundo, a fome de criar, que alimenta a busca, mostrando-se herança materna. Só quando se dá conta do sofrimento da mãe, um sofrimento já seu conhecido como mulher, é que se entende filha, e daí, então, pode exercer com alguma vontade a maternagem, sem deixar de lado suas tantas outras faces, pessoa completa. Escrevendo para parir a si mesma, ela se reconcilia com o que encarna de primitivo, constatando-se parte de uma só entidade formada por três corpos — uma Santíssima Trindade de mulheres.


Com A filha primitiva, Vanessa Passos mostra o escrever como um parto infinito e a criação literária, uma maneira de dar à luz.


>> Este texto é um publieditorial que reproduz integralmente a opinião do LiteraTamy.


Assista ao lançamento do livro no canal do LiteraTamy:


Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.



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