Maria Altamira: por uma identidade brasileira indígena e latino-americana




“Uma história começa em qualquer lugar e em qualquer momento. Há sempre algo que entrelaça de tal maneira as histórias do mundo e as de cada um de nós que o começo depende apenas do ponto de vista pelo qual você escolhe ver e desembaralhar os nós, as malhas, os vazios”. A história de onde vem o trecho anterior é Maria Altamira (Editora Instante, 2020), dedicada ao povo Yudjá de Volta Grande do Xingu e aos beiradeiros de Altamira — e começa pelo desastre. Alelí perde toda a família em um deslizamento de terra em Ancash, no Peru, em 1970 e a partir daí empreende uma viagem sem rumo por países da América do Sul. Seu percurso é emocionante e, tal qual a trajetória dos lugares por onde passeia, parece um acúmulo de infortúnios.


Depois de muitos anos como errante, ela chega ao Brasil e vive por um tempo junto ao povo indígena Yudjá, às margens do rio Xingu, onde assiste aos efeitos infelizes dos projetos de construção da barragem do Belo Monte, em 2011. Catástrofes naturais, como o terremoto em Yungay que matou milhares de pessoas, e desastres arquitetados pelo humano, como a usina do Pará que esconde sob sua grandiosa infraestrutura a destruição de vidas, terras e sonhos, embora despertem na protagonista o horror do nada, não são suficientes para minar sua “força sem tino, sem razão, jamais convidada, que não a deixava parar” (p. 37), seu inato e teimoso instinto de preservação. Para além da sobrevivência, lateja em Alelí o talento da resistência, como uma habilidade involuntária que a assombrasse – característica que aparenta brotar do sangue latino-americano. Alelí é metáfora da América Latina rondada pela morte, condenada ao exercício sisífico de caminhar mesmo aos tropeços. Esbarrando em diversas agressões que castigam o continente, representadas por ditaduras militares, desigualdades e negligência política generalizada, a protagonista concentra os resquícios dessas violências, incorporando também as dores da penalização, como se já não estivesse machucada demais.


Sua vivência junto aos Yudjá e os acontecimentos trágicos que ganham forma nesse período lhe confirmam a certeza de que uma espécie de maldição a acompanha aonde quer que vá. O que o sofrimento não lhe permite ver é que essa maldição não nasce dela e mais parece estar entranhada na pele das terras latino-americanas, estendendo-se sobre seus nativos, un pueblo sin piernas pero que camina¹. O medo, porém, impele Alelí a partir, deixando para trás o fruto de sua estada no Pará: Maria Altamira, personagem cujo nome serve de título ao romance de Maria José Silveira. O livro se divide em duas partes, mãe e filha, núcleos narrativos que mesmo fisicamente distantes permanecem interligados pela porção continental que lhes serve de solo. Como herança materna, Maria recebe o potencial simbólico de sua identidade e, se Alelí representa a América Latina, sua filha alegoriza não apenas a cidade paraense que inspira seu nome, como também a formação do enfrentamento indígena (e justafluvial como um todo) contra a barragem que cresce junto da menina, “como se sua vida fosse puxada por um caminhão de cimento em direção ao rio” (p. 86).


Mantendo ativas as movimentações que sustentam o romance, enquanto Alelí continua suas andanças, Maria Altamira muda-se para São Paulo e passa a viver em um prédio ocupado na capital paulista. Embora geograficamente afastado do Xingu e seus conflitos, o foco narrativo não se distancia tanto, mantendo-se sobre a luta pelo direito a território e moradia dignas. O contato com os moradores das ocupações, muitos deles advindos do interior do país e, assim como ela, descendentes de indígenas, surpreende Maria com o tipo de miséria e superação tão particulares da pauliceia e que endurecem seu coração, munindo-a de coragem e determinação para retornar ao Pará, onde a barragem deixara de ser projeto e tornara-se realidade, concreta e cruel sobre os povos ribeirinhos. O amadurecimento da personagem acompanha a maturação desse projeto tecnológico que, se por um lado garante lucro quase imediato a seus investidores, por outro reserva à população a pobreza financeira e identitária praticamente permanente, de quem tem o acesso às próprias fontes naturais interditado e deve recorrer a formas de sobrevivência descaracterizadas e, muitas vezes, improbitivas.


O trânsito de Maria Altamira por cidades e aldeias nos coloca em frente às várias faces do autoritarismo e da ganância que alimentam práticas cruéis (e infelizmente comuns) de desterritorialização na América do Sul, sem que se perca o encantamento pela vida, essa forma de coragem própria da personagem, que tanto nos cativa quanto a mantém firme em busca de suas origens. E se a leitura de Alelí e sua filha como metáforas de territórios é uma chave estimulada pelo texto, as idiossincrasias de cada uma delas, as singularidades de suas personalidades e trajetórias, também são amplamente exploradas pela narrativa – mas mesmo elas vêm em decorrência dessa formação cultural, um equilíbrio de composição que é o grande mérito do romance, na medida em que aproxima o Brasil da identidade latino-americana da qual faz parte, ainda que muitas vezes se esqueça disso. Essas questões se imprimem em excelentes diálogos, concebidos por múltiplas vozes e expressões orais respeitadas na transcrição, com forte carga filosófica mesmo em contextos de informalidade. O fim do livro desponta um quê de realismo mágico que reforça seus traços latino-americanos, definindo a obra como um canto à união da América Latina e ao reencontro do povo brasileiro com seu espaço de pertencimento e origem.


Coroada por uma belíssima edição da Instante, que concebeu sua capa como um roteiro cartográfico acompanhando as marchas das personagens, Maria Altamira expõe a presença sempre ativa da população indígena e ribeirinha no combate contra políticas de aniquilamento que afetam todo o planeta e em relação aos quais grande parte dele permanece indiferente. Integrando o âmbito da literatura de denúncia, o romance nos apresenta “espaços e personagens com os quais nós, leitores/as de literatura, não estamos acostumados/as. Por isso, também, a surpresa da bela narrativa, que nos envolve e, de algum modo, nos responsabiliza”, como aponta Regina Delcastagnè em depoimento que consta na edição. Se durante a narrativa somos confrontados pela questão onde estávamos nós enquanto toda essa destruição se implantava?, finda a leitura resta-nos perguntar: onde estamos agora?


¹ "Latinoamérica", música de Calle 13


Assista à entrevista da autora no canal do LiteraTamy:


Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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