Pluralidade e desmistificação na literatura do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa



Quando fala sobre os perigos da história única¹, Chimamanda Ngozi Adichie aponta como um de seus efeitos a criação de estereótipos, definições incompletas que não dão conta de abarcar a complexidade do que descrevem. Discursos históricos que tendem ao maniqueísmo, demarcando em relevo os polos positivo e negativo onde cada coisa é categoricamente fixada, além das imagens chapadas criam outras ameaças: os mitos. Homens e mulheres transformam-se em paladinos ou algozes, datas viram marcos e tudo se institui como céu ou inferno. Assim, os anais da humanidade ganham ares de epopeia, o passado torna-se épico e os envolvidos nesses processos deixam de ser meros seres humanos convertendo-se em História, desse jeito, com h maiúsculo, uma só narrativa cristalizada que não se altera, sem nuances e absoluta. Como bem dito pela autora nigeriana, apenas quando rejeitamos tal noção de história única podemos reconquistar uma espécie de paraíso, aquilo que nos aproxima do outro pela desmistificação. Tal rompimento com o mito é o que guia Ungulani Ba Ka Khosa na composição de Gungunhana, o último imperador de Gaza, em Moçambique, nos livros Ualalapi (1987) e As mulheres do Imperador (2018), reunidos pela editora Kapulana em um mesmo volume.


O resgate de múltiplas perspectivas como princípio narrativo não demora a aparecer na obra. As epígrafes que abrem Ualalapi apresentam ao menos duas faces do imperador, descritas por estrangeiros que aportaram na história moçambicana. O primeiro deles é Ayres d’Ornellas, militar português afeito às lógicas da guerra que vê em Ngungunhane um chefe de nação pleno de superioridade e lucidez argumentativa; o segundo é o médico suíço Liengme, missionário evangélico que enxerga no rei um “ébrio inveterado”, medonho e diabólico, de políticas cheias de duplicidades. Se em um primeiro momento o leitor espera descobrir qual das declarações contém a verdade, a narrativa subsequente responde que nenhuma delas é falsa – e, muito menos, completamente verdadeira. O romance começa pela ascensão do império de Gaza, que tem origem na morte, por ela caminha e nela termina, onde Gungunhana reinou entre 1884 e 1895, quando foi deposto pela monarquia portuguesa e enviado a Portugal. Lá ele morre anos depois, sem qualquer vestígio de realeza. Uma vez que a derrocada do império de Gaza estampa em Moçambique a crueldade do colonialismo português, que arranca do povo sua liderança e, por conseguinte, sua identidade, instaurando instabilidade e caos político no país, a figura desse líder é então retomada como símbolo de resistência da luta nacionalista pela independência moçambicana, conquistada a altos custos em 1975. O problema é que a versão do imperador como herói nacional escamoteia sua tirania e sua postura de invasor em busca de expandir a própria soberania.


Alguns o traduzem em ídolo admirável, há também quem o considere sanguinário (visão preferida pelo colonialistas, que dessa forma legitimam sua intervenção em terras moçambicanas como parte de um processo civilizatório e redentor, mascarando de bom-mocismo suas agressões imperialistas); a narrativa de Khosa, por sua vez, dedica-se a colocar lado a lado os ângulos opostos como complementares. Num momento em que o sabor da libertação é ainda novidade em Moçambique, “Ungulani Ba Ka Khosa ousa mostrar que a ideia de um Gungunhana ‘herói nacional’ está tão próxima do mito quanto a antiga narrativa do ‘rei bárbaro’”², uma empreitada tanto audaz quanto preciosa. Pelo desvendamento de seu protagonista, o autor se distancia a um só tempo da idolatria e da iconoclastia e assim se aproxima da humanidade do personagem, espaço onde o bem e o mal coexistem. Dessa forma denuncia as maneiras nem sempre justas pelas quais a História se conta, delegando epítetos drásticos aos nomes notáveis enquanto a realidade do povo, neste caso especificamente, permanece submersa em camadas de sofrimento duplo, por um lado causado pelos conflitos internos entre diferentes grupos étnicos, por outro reforçado pela colonização, que segue alimentando sua crueldade sem restrições ou distinções. Daí a importância de relatos que abarquem a profusão panorâmica dos fatos e de conhecê-los: aquele que domina a história de sua ancestralidade e sabe como contá-la é poderoso, porque identifica suas cicatrizes, distingue suas particularidades e evita suas causas, jogando por terra a crença em mitos políticos.


Ungulani registra violências que partem de diversas origens em direção ao povo moçambicano sem recorrer a equivalências, sempre mais interessado pelas polissemias do que por juízo de valores. E se as agressões são plurais, igualmente múltiplas são as manifestações de resistência e vastas as expressões culturais. O autor também aposta na pluralidade formal para compor o que chama de “fragmentos do fim” em Ualalapi. O narrador parece um colecionador de relatos, coletando verdades em jornais, em exposições orais, em sonhos de personagens, em discursos oficiais, em ditados africanos e, claro, na fabulação, que assevera o caráter ficcional da obra. Formado por seis capítulos independentes e de organização intercambiável, unidos pelo objetivo de retratar o imperador Gungunhana, o livro é como um romance histórico que narrasse o ao vivo da formação de um mito, como se acompanhasse uma Odisseia em tempo real, com impressionante singularidade na forma. Diferente da epopeia grega, porém, aqui a mitologia se desmantela pela branca intromissão de autoridades de outra ordem, pelo racismo e pela dizimação do colonialismo travestido de civilidade.


“Estes homens da cor do cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jiboia. Chamarão pessoa por pessoa, registrando-vos em papéis que enlouqueceram Manua e que vos aprisionarão. Os nomes que vêm dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados, a palavra que impôs a ordem nestas terras sem ordem, a palavra que tirou crianças dos ventres das vossas mães e mulheres. O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas.” (p. 98)

Em termos de estilo, é notável o flerte com o realismo mágico latino-americano, que o autor afirma³ fazer parte de suas referências literárias. Cristhiano Aguiar, em sua análise da obra, defende que “a influência do realismo maravilhoso não acontece aleatoriamente, pois na América Latina esse conjunto de obras não deixou de fazer parte de um contemporâneo ciclo de pensamento sobre os fundamentos identitários e políticos dos seus países de origem”. Justamente porque fantasia uma realidade tão particular quanto a identidade de uma nação, ainda que beba da tradição latino-americana, o realismo fantástico de Ungulani é em tudo autêntico, e só poderia mesmo se estabelecer ali, no lugar de onde ele narra. Os episódios em que se destaca o maravilhoso são responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes da narrativa, produzindo imagens inesquecíveis e de forte carga simbólica para a construção do caráter moçambicano, sobretudo em relação às contribuições do imperador para sua formação. Além disso, é interessante notar que muitas dessas manifestações mágicas afloram em contato com o feminino – o caso de Damboia é um exemplo impressionante –, que parece suspender o tempo e colocar em contato passado, presente e futuro. As mulheres personagens de Ungulani são sensíveis à magia, que chega até elas como dádiva ou como castigo a comportamentos que os homens podem assumir sem represálias. Aqui o corpo feminino é uma potência absoluta, capaz de revoltar-se tal qual uma força da natureza, mas sempre dentro dos limites que a comunhão involuntária com o ecossistema ao redor determina.


Essas particularidades fantásticas do feminino são ainda mais exploradas no livro seguinte, As mulheres do imperador, que, como o próprio título antecipa, centra-se na história das esposas de Gungunhana, separadas do marido e expatriadas no fim do século XIX. Complementando o retrato do imperador, agora o protagonismo deixa de ser dele e é cedido a elas, em consonância à diversidade ótica que guiou a narrativa anterior. Elas saem do império de Gaza e retornam do exílio em São Tomé depois de quinze anos – mas o retorno é incompleto, porque o território que deixaram já não existe mais. Em seu lugar está o recém-nascido Moçambique, país desconhecido. O direito de regresso lhes foi roubado. Também por isso o ritmo narrativo se modifica; se em Ualalapi o texto soava como um coral de vozes retumbantes, as dicções de As mulheres do imperador são mais comedidas, de acordo com a situação de eterno desterro a que as personagens foram submetidas.


Fiel aos princípios da polifonia, Ungulani transfere o foco narrativo às mulheres, ocupando-se de seus medos, desejos e dificuldades decorrentes do destronamento de Gungunhana, obstáculos que permitem acessar a história por novos prismas. Experimentamos os contrastes e as contradições que as atravessam, as desigualdades que enfrentam por questões de raça, classe e gênero. Ainda que o imperador reservasse suas doses de sexismo às esposas, cumprindo o dever de patriarca soberano, em São Tomé as subjugações se potencializam pela condição de mulheres pretas estrangeiras desamparadas em um país racista de tempos passados, onde os negros são tratados como animais exóticos em exibição no zoológico, sem que sobreviva o mínimo traço do tratamento real que elas estavam acostumadas a receber em terra natal. Por mais que o contexto seja deplorável, há certo encanto em esquadrinhá-lo, especialmente porque o autor constrói a personalidade de cada esposa com significativa singularidade; todas elas têm suas particularidades respeitadas e exploradas com mesmo interesse pelo narrador e reagem a seu modo aos acontecimentos. Acima de tudo, elas deixam de ser ícones monárquicos, meros enfeites comprobatórios da pujança imperial, e se descobrem, talvez pela primeira vez e com todos as balizas das circunstâncias, agentes da própria trajetória.


Como é de se esperar dadas as conjunturas, neste segundo romance a violência continua a ter papel ativo. Delatada nos diálogos (nem sempre concordantes, mas quase sempre transigentes) das personagens femininas, que descrevem a objetificação e a hiperssexualização com que são tratadas na “terra dos brancos” que as infertiliza, desconectando-as de si mesmas e tirando delas até seus próprios nomes, essa violência é do tipo que se perpetua em gerações, e que acaba se firmando como um ponto de comunhão entre as esposas de Gungunhana. A vida no exterior e o regresso a uma nação desconhecida as impelem à negação do próprio passado, insistem em relegar suas gêneses ao esquecimento e muitas vezes forçam o apagamento contra elas, que resistem pela união, pelo contato e pelo compartilhamento de experiências, angústias e lembranças, num belo exemplo de sororidade suscitada pelo infortúnio.


– É – anuiu Namatuco. – Somos o passado. Somos a memória negada. Ninguém vai acreditar na nossa verdade. Esta terra está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta. Os Portugueses de hoje serão passado amanhã. Esta terra levará séculos a se encontrar porque vai negar sempre o seu passado. (p. 176)

Chama atenção a sabedoria ímpar com que essas mulheres lidam com as fatalidades, previamente anunciadas por sinais que elas são hábeis em interpretar como aviso. Ao contrário de Édipo, um dos mais insistentes representantes da mitologia ocidental, que tenta fugir de sua sina e justamente por isso acaba arremessado no olho do furacão do qual pretendia escapar, as esposas de Gungunhana possuem uma espécie de resignação ao próprio fado que, longe de ser uma fraqueza, é sua grande força, poupando-as do engano gerado pela prepotência daquele que crê ser mais esperto que o destino e preparando-as para enfrentar com disposição a realidade inescapável. Elas leem os prenúncios para obedecê-los porque é impossível evitá-los, e esse contato harmonioso se instala enquanto forma de resistir. Por meio dessas personagens que não impõem suas vontades sobre o outro, aceitam o tempo das coisas maiores e assim sobrevivem, Ungulani demonstra que sempre houve resistência por parte dos homens e mulheres moçambicanos, ainda que o olhar colonizador teimasse em interpretá-la como passividade e submissão.


Diante de tudo isso, talvez a palavra-chave para descrever Gungunhana seja renovação. Renovação narrativa que se faz pela escavação histórica para atingir o homem sob a lenda, uma reinvenção somente possível por vias literárias. Uma vez que “a História é uma ficção controlada”, como Agustina Bessa-Luís afirma na epígrafe que abre Ualalapi, a literatura de Ungulani investe no descontrole e assim abala estruturas que sustentam ícones de maneira reducionista, obedecendo a interesses políticos majoritariamente dualistas. Combatendo a história única e seus perigos, Khosa escancara as engrenagens que elegem mocinhos e bandidos e expõe, pela proximidade, as sequelas do imperialismo sobre os colonizados, sem perder de vista a humanidade por trás dos processos históricos. Gungunhana nos relembra que um povo que confia em mitos alimenta ciclos de ilusão condenados ao fracasso – e nos mostra que já passou da hora de valorizarmos o humano, naturalmente plural.


¹ "O perigo da história única", de Chimamanda Ngozi Adichie

² "Ficção, política e história: Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa" por Cristhiano Aguiar

³ "[ENTREVISTA] UNGULANI BA KA KHOSA" por Igor Gomes no Suplemento Pernambuco


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:


Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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