Identidade afro-brasileira em "Por cima do mar" de Deborah Dornellas




Das muitas magias pertencentes ao mar, uma das mais experimentadas pelo humano é a viagem. Através do mar, chega-se ao outro lado. Suas águas que separam continentes são também as responsáveis por uni-los. Nessa união nadam tanto a violenta diáspora quanto o desejado retorno, movimentos marítimos explorados por Deborah Dornellas no romance Por cima do mar (Editora Patuá, 2018), obra vencedora do prêmio Casa de Las Américas que recupera a maré como elemento-chave da conexão perpétua entre Brasil e Angola.


A nota introdutória revela que a história de Vitalina não é um livro, mas um projeto, e promove a sensação de que assistimos a algo ainda em movimento, continuado. A narradora-protagonista se apresenta como historiadora e ficcionista, crente no narrar como passar adiante, às voltas com lembranças escritas em fragmentos remontados, tal qual um corpo despedaçado se reunindo. Em seguida, a descrição de uma personagem ancestral, sem a qual não haveria o presente, é providencial para o início de tudo. O modo de descrevê-la a partir daquilo que ela não é ou não tem (pela pobreza, pela pressa, pelos ares de promessa) antecipa uma informação que Vitalina nos dará algumas páginas à frente: o costume da família em falar por negativas. É triste e linda a afirmação de que “todo o seu ser existiu um dia apenas para servir a alguém do lado de lá do oceano” (p. 11). A protagonista brota como semente dessa figura embaçada mas resistente, e assim enxerga um pouco de vó Nacinha em outras mulheres. Escolher falar sobre elas é também uma forma de resistir; narrar essas vidas é resistência em dobro. Tudo em Lígia Vitalina soa como duplo — impressão que se desenvolve com a narrativa.


A começar pelo seu nome, originalmente um só, Vitalina, como desejado pelo pai, mas corajosamente encorpado pelo acréscimo de Lígia, escolhido e defendido pela mãe determinada. Tal brincadeira de incorporar nomes a alcunhas existentes é constante na narrativa, surgindo toda vez sob a lógica da ampliação, nunca pela substituição. Com isso as personagens se formam como palimpsestos, carregando consigo as origens basilares às suas configurações particulares. Lígia é essa mulher-palimpsesto que alude a todo o povo afro-brasileiro em contato inseparável com seu berço. A relação fisicamente inegável com essas raízes lhe oferta a experiência de destaque, sempre marcada pela diferença que ela aprende desde cedo carregar:


Em compensação, se é que se pode chamar assim, não me sinto invisível há muito tempo. Ou melhor, não sou. Aliás, nunca fui. Embora muitas pessoas à minha volta ainda teimem em querer me provar que uma pessoa negra e de família pobre, mesmo bem-sucedida como me julgam alguns, tenha que viver na sombra. Ora, uma pessoa negra jamais seria invisível no Brasil: todo o tempo ela é lembrada que tem uma cor. E mesmo que sejamos muitos, e somos, eles insistem há séculos em fingir que não existimos. Ou que existimos apenas para lhes servir. Não. (p. 37-38)

A primeira parte da narrativa de Lígia se passa em Brasília. Sua profissão de historiadora é mais que apropriada às inserções de referências históricas sobre a cidade que povoam o romance com naturalidade. Graças a elas conhecemos mais sobre a capital do Brasil; assistimos à invasão ao Quarentão em 1986, quando o racismo gritou com todas as letras “branco sai, preto fica”; entramos em contato direto com os candangos, como o pai Serafim Bemol Brasil, migrantes que, em péssimas condições de trabalho e moradia, participaram da construção dessa cidade em que não estavam autorizados a morar, sendo despejados ao espaço que hoje se conhece como Ceilândia, mais um deslocamento forçado dentro do próprio país; frequentamos shows de Cássia Eller, sentindo a influência do rock brasileiro na juventude brasiliense da época e somos lembrados de que “as periferias do mundo são trágicas. A vida real é uma tragédia. E nós somos a vida real” (p. 165).


A entrada da protagonista na universidade e a oportunidade de estudar são um grande marco não só na sua vida, como também na de sua família. Mais do que prestar atenção no que muda a partir desse novo passo, também é importante enxergar o que se conserva com o passar do tempo, mesmo depois do ingresso na vida acadêmica. Isso Lígia sente na pele quando sofre um estupro dentro da cidade universitária, uma violência em tudo simbólica. A descrição do episódio é nauseante, repulsiva, carregada de inúmeras opressões de uma só vez, certamente uma das mais marcantes da literatura brasileira contemporânea. Tanto a circunstância quanto suas reverberações são tratadas com grande responsabilidade, um cuidado louvável da autora que sabiamente demonstra como um trauma como este fica, impactando persistentemente a vida da vítima a partir de então. Mas pode ser superado. E aí são acolhidas a terapia e as reuniões coletivas no processo de superação de choques, bem como a união entre mulheres. Por cima do mar é um romance movido por elas, sobretudo pelas mulheres negras.


Depois de muitos anos morando na Ceilândia e dentro da cidade universitária, a vida toda afastada do chamado Plano Piloto pelas políticas de apartheid geográfico tão evidentes naquela época, à Lígia é dada a oportunidade de atravessar o Atlântico para estar em África, na Angola onde ela sempre esteve e que sempre esteve nela. Essa migração às avessas afirma: “Desterrada? Não. Reencontrada.” Tudo anterior a essa viagem é como uma construção do retorno. E se havia incerteza quanto às suas origens angolanas, provocada pelo apagamento histórico promovido pela escravização negra, ela é deixada de lado pelo sentimento de pertencimento que toma a protagonista no seio da família angolana que a acolhe. Seu estrangeirismo em Brasília, cultivado pela sensação de visão periférica reservada aos que moram às margens da capital e por isso só podem ver a própria cidade com um olhar de fora, parece se dissolver na segunda parte do romance, quando Lígia conhece Angola. A viagem produz poemas:


Vim cair nesta praia, na outra banda do Atlântico/ Terra de gente preta que nem eu/ Africana que nem eu/ As palavras soam que nem eu/ Candango moleque banguela candonga cacimba/ Semba samba caçamba malungo/ Kalunga gindungo kamba maka/ Cambada lambada capanga bessangana/ Copacabana não me engana/ Benguela, Huambo, Bailundo, Catumbela, Lubango, Cabinda./ Luanda, Luanda, onde estou? / Luanda, Luanda, onde estás? (p. 205)

Como boa historiadora, Lígia passa a estudar o país, demorando-se sobre as mulheres angolanas, descrevendo, por exemplo, as zungueiras, que sustentam famílias numerosas como vendedoras ambulantes, uma das forças motrizes da economia local. A protagonista experimenta o racismo também em África e lá aprende modos de ser mãe. Sua vida depois dos quarenta anos é ainda mais repleta de novidades e aprendizados. Flertando com o realismo mágico, Dornellas faz sua protagonista voar. Vitalina deixa o planalto central brasileiro para no planalto central angolano ser Lígia Vitalina de verdade.


Caminhando primeiro por Brasília e depois por Benguela, duas capitais de oito letras no nome, tudo na existência da protagonista remete ao símbolo do infinito que faz lembrar o mar, apartando e religando Brasil e Angola pelas marés. O livro inteiro como que flutua, indo e voltando no tempo tal qual um barco nas águas, ou como um navio em mar calmo, com algumas ondas mais raivosas aqui e ali. Seus capítulos curtos, entremeados por epígrafes alheias e belíssimas ilustrações da própria autora, que recheiam a edição muito bem-feita da editora Patuá, nos dão a chance de manter a cabeça fora d’água para que possamos respirar e assimilar o quanto de oceano nos une à África, o que há de semelhante na formação de países como Angola e Brasil, nações essencialmente afro.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:



Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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