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Narrar contra a aniquilação da guerra: "Irmão de alma", de David Diop



O narrador de Irmão de alma (Nós, trad. Raquel Camargo) é Alfa Ndiaye, um soldado senegalês da Grande Guerra convocado pela França a participar da escaramuça contra o inimigo alemão. O livro começa pelo meio de uma frase que acusa a inacessibilidade da essência desse homem, completamente transformado pela experiência da guerra, um marco que altera tudo. O que ele escolhe nos dizer antes de mais nada é que, apesar de toda a vivência no conflito bélico, a honra de sua família estará salva, porque tudo aquilo que ele pensou e fez no campo de batalha será sempre um mistério inapreensível ao outro.


Ndiaye é um homem jovem que se destaca por sua beleza e força, em contraponto à figura franzina de Mademba Diop, seu irmão de alma, amigo de infância que morre em combate nos braços do protagonista. A morte de Diop, descrita com agonia gráfica, provoca uma inversão total da ordem das coisas, literal e simbolicamente. Alfa hesita em acabar com o sofrimento do amigo, negando-se a dar-lhe o golpe de misericórdia que ceifaria sua vida, o que gera uma profunda reação de arrependimento e culpa, sentimentos que serão a tônica do relato. “Eu te deixei suplicando por razões erradas, por pensamentos prontos, bem-vestidos demais para serem honestos”, diz ele. Afinal, há lugar para questões morais e éticas na conjuntura surreal da guerra, que no ato do conflito suspende qualquer princípio de contrato social, onde a realidade é tão urgente que não enquadra leis humanas e conceitos inventados como o belo e o correto, num contexto em que Deus se ausenta e praticamente tudo dado como certo é colocado em questão, subvertido, o lado de dentro passando ao lado de fora? Como lidar com os danos espirituais que a experiência da guerra causa, especialmente naqueles que atuam no front? A barbárie inédita que acompanha a perda do melhor amigo em conjunturas tão brutais abre espaço para que tais questões acendam em Ndiaye a permissão para o impensável: ignorar a voz do dever e da ancestralidade, a voz do interior que ordena seus passos até aquele momento para, enfim, transformar o próprio pensamento em um espaço de liberdade insurgente, um lugar de preparação para ser humano quando precisar ser, qualquer que seja o preço a pagar. A guerra o faz encarar a verdade do próprio espírito.


A narrativa se estrutura em bases típicas da oralidade, como a repetição de determinadas construções frasais que constituem uma espécie de refrão, reiterando sobretudo a presença de Deus no discurso, como um chamado frente à sua ausência. Com a morte de Mademba, Ndiaye se autoriza a formular pensamentos até então inconcebíveis, como a imagem das trincheiras feito o sexo de uma mulher imensa aberta à guerra, esta com frequência relacionada ao feminino, especialmente pela relação que determinados combatentes têm com ela, como o caso do capitão Armand, tão conectado à guerra que, para o narrador, é como se os dois fizessem amor, unidos em um relacionamento inabalável. Desses pensamentos irrefreáveis surge a indignação sobre a condição dos soldados africanos no campo de guerra e a percepção de como o branco europeu se aproveita do estereótipo selvagem criado sobre as pessoas negras para, com ele, intimidar os adversários. Tal perspectiva coloca o corpo negro, mais uma vez, a serviço da branquitude, poupado enquanto se subordina às vontades do colonizador, facilmente transformado em presa quando deixa de servir. A respeito disso, Edimilson de Almeida Pereira escreve que “no momento da guerra, os franceses utilizam a ‘selvageria dos africanos’ para assustar os inimigos alemães. Essa manipulação ideológica da violência vai transformá-los em verdadeiros assassinos de guerra. Ndiaye é o extremo dessa experimentação ideológica do colonizador”. O narrador critica a passividade de seus companheiros negros e brancos que sempre dizem sim ao que lhes é ordenado, obedecendo sem questionar às determinações cruéis dos superiores, e investe na primazia da razão como guia de seus passos. Ele decide pensar por conta própria, apoiar-se não na vontade alheia, e sim no próprio pensamento, uma tentativa que, se não o impede de evitar o destino da desumanização impiedosa da guerra, ao menos garante que ele se faça selvagem não por obediência, mas por reflexão. No fim das contas, “à noite, todos os sangues são negros”, todos se igualam na morte que expõe o interior dos corpos, todos são corrompidos pela guerra.


Ndiyae tem o costume de arrancar as mãos dos inimigos mortos e carregá-las consigo como um totem, hábito a princípio louvado pelos seus companheiros. Na sétima mão cortada, porém, essa atitude começa a causar medo, transformando-se de totem em tabu, algo inaceitável dentro dos limites de uma “guerra civilizada”, conceito um tanto irônico, para não dizer hipócrita, que o capitão Armand defende – logo depois de ter ordenado o assassinato de soldados toubabs que se recusaram a continuar lutando e morrendo por mãos inimigas. A partir desse momento, à solidão natural da guerra soma-se no protagonista a solidão que advém do estigma da loucura ao qual ele é condenado. A racionalização extrema que Ndiyae tanto buscava então encosta na irracionalidade, na loucura que, temporária, é irmã da coragem na guerra, porque permite esquecer a verdade da morte. Mas e quando definitiva?


Borram-se as fronteiras entre sanidade e insensatez, como as do eu e outro, e essa dualidade passa a ser apontada com mais insistência pelo narrador: “Pela verdade de Deus, todas as coisas possuem em si o seu contrário. [...] Pela verdade de Deus, assim vão as coisas, assim vai o mundo: todas as coisas são duplas”, ele diz ainda na metade do romance. Até o ponto em que é mandado para um sanatório, onde se aproxima ainda mais do passado, de sua família e de Mademba Diop, um alívio temático e poético depois de tanta brutalidade, ainda que não menos triste. Por uma questão linguística, ele não consegue se comunicar verbalmente com o doutor François na clínica em que é designado a ficar, então desenha para ele, ao mesmo tempo que desenha para nós os retratos de seus afetos; a imagem de sua mãe, cujo destino triste marca o primeiro sofrimento de Alfa, e de seu pai, apresentado como um soldado da vida cotidiana, homem sábio, cultivador de árvores, frutos e crianças.


Essa retomada da memória descende a um estado de confusão mental que, naturalmente, contamina as ações e o discurso do protagonista, cada vez mais alheio à realidade e ao verniz das relações sociais, rumo à duplicidade que se imprime sutilmente desde o início do relato, crescendo à medida que avança a narrativa. A pequena voz em sua cabeça, com seus contornos de culpa e arrependimento, enfim assume as rédeas, e a história sob a história se assoma, tomando o lugar do sujeito numa tentativa de redenção, de permitir que o outro, o irmão de alma, acesse as experiências que lhe foram brutalmente tiradas, metamorfoseando um desejo difuso em ato concreto, tudo a partir do narrar. Eu e o outro indistinguíveis contra a aniquilação provocada pela guerra.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:


 

Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH - USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


 

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