Autobiografia, o livro infinito de José Luís Peixoto


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Em Autobiografia (Companhia das Letras, 2019), José Luís Peixoto é um arquiteto engenhoso. Tomando cada palavra como casa edificada nas ruas do texto por onde passeamos, ele regula o romance num arranjo calculado pelos capítulos circunscritos como esquinas e becos. Se todo livro é um lugar, este é um labirinto de espelhos.


A história parece simples, mas sua trama complexa repete-se ad aeternum, tal qual boneca russa: um jovem romancista chamado José recebe o imprevisível convite para publicar uma biografia de Saramago, também ele um protagonista do livro, cuja intimidade é adentrada em várias páginas. Com Peixoto forma-se a tríade homônima que se entrelaça inseparável no enredo, desorientando sobretudo o personagem do jovem autor perdido, refletido como homem duplicado (ou triplicado?) na narrativa e que, ainda sem saber, anda em órbita de si mesmo, preso em um circuito tanto elétrico quanto eletrizante onde as definições de eu, outro, romance, biografia e autobiografia se embaralham na medida em que tudo é invenção. Nesse desnorteio vertiginoso, não só espacial mas também temporal, Saramago guarda um segredo — e se mistura até com o leitor, num jogo metaliterário fascinante:


O livro, esquecido por momentos, caiu-lhe da ponta dos dedos. Esse estrondo puxou Saramago dos pensamentos. Levantou-se, dobrou-se, posição acrobática, e apanhou o livro. Voltou a acomodar-se na cadeira e folheou o romance de José até a página certa. Entrou numa frase, palavra a palavra, e prosseguiu. Tomando consciência de si próprio, ou transformando-se naquelas linhas, lia sobre alguém que lia. E, sem que ninguém o testemunhasse, sozinho no escritório, pareceu-lhe que a menção a um rosto imóvel, nem festivo, nem acabrunhado, se referia ao seu próprio rosto. (p. 96)

A obra promove certo efeito de unidade que remove as tradicionais fronteiras entre texto e vida, como se as duas coisas fossem uma só. Orientada por epígrafes saramaguianas que parecem indicar caminhos dentro de seu perímetro, ela exige o papel ativo do sujeito leitor que, além de meramente interpretar orações, deve estar apto a se enxergar retratado nos capítulos que lê, como se vislumbrasse o próprio reflexo num espelho em cacos, guiado pelas palavras de Saramago que classifica a literatura como um “contar-me a mim próprio através do outro e contar o outro através de mim próprio”. A atenção que o romance exige e o risco da confusão longe de apontarem defeitos são, na verdade, um grande trunfo. Uma vez que escrever romances é entrar em fuga num dédalo, lê-los também o é, com todos os perigos dessa experiência.


A vasta e excelente galeria de personagens do livro, todas conectadas de alguma forma a Saramago, compõe um retrato multifacetado do Portugal que elas formam. Assim, José escreve sobre José, que escreve sobre José, e é lido por homens e mulheres que bem poderiam carregar o mesmo nome. Tem-se, assim, um livro circular — e portanto infinito em sua constituição.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:


Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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