Crocodilo: o problema filosófico do suicídio



“Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento.” Sem nos poupar do choque compartilhado da notícia, é assim que o narrador Ruy dá início a Crocodilo (Companhia das Letras, 2019), romance de Javier A. Contreras que acompanha os sete dias seguintes à morte do único filho do protagonista, resgatando episódios passados na tentativa de entender o que pode ter motivado o suicídio de Pedro. Nesse diário inflamado do luto, Ruy se empenha em elaborar a situação por métodos investigativos, típicos da profissão de jornalista que ele exerce durante muitos anos, como se fosse possível encarar o fim de Pedro como mais um mistério jornalístico a desvendar. A tarefa, no entanto, se desdobra em autoquestionamentos dolorosos de um homem que, tendo perdido o filho, perde também sua identidade de pai.


Das impressões do acontecido, uma das primeiras a perturbar Ruy é a constatação de que a palavra suicídio parece impronunciável, tanto pela mídia interessada na morte do jovem cineasta de prestígio quanto pelas pessoas próximas que apenas aludem ao que passou como a uma tragédia inominável. Inconformado com as circunstâncias, para ele inexplicáveis já que a Pedro não faltava família, dinheiro, amor e reconhecimento profissional, é por meio do vocábulo que o protagonista inicia seu percurso pelas aflições da perda, e não apenas pelo potencial transgressor do discurso, mas também porque nomear o autocídio e quebrar as barreiras do tabu que o envolvem é seu primeiro passo em direção ao filho, de quem sempre foi distante. Falar sobre o que não é dito fora a grande missão da trajetória de Pedro enquanto documentarista, que Ruy então assume como sua, aproximando-se dele em alguma medida. Em seus trajetos pelos pêsames, ele relembra de um aborto sofrido pela esposa anos antes, como que traçando uma cartografia dos sofrimentos, explorando as muitas espécies de dor que podem acometer pais e mães, cada vez mais convencido de que não há nada que se compare à magoa do abandono de “um filho que não morre. Um filho que se mata”. O ex-repórter peita o silêncio que ronda o suicídio, bem como as perspectivas romantizadoras que igualmente o cercam, além de enfrentar aspectos burocráticos de mortes como essa e apontar, em números concretos, quantas delas acontecem no mundo sem ser comentadas. Nesse sentido, o romance se ergue como defesa à fala, à discussão do suicídio enquanto parte da vida.


O livre-arbítrio elevado à máxima potência de morrer por vontade própria podia até ter uma definição jurídica ou filosófica, mas ninguém sabia exatamente como tratar um caso de suicídio. Sempre foi algo relegado às sombras. Não ensinado. Fora da rotina, dos livros, das escolas. O suicídio era mais uma das coisas assustadoras da vida. Uma condição que ninguém gostava de acompanhar e que sempre fora desconfortável para todos os agentes envolvidos. Desde o faxineiro do prédio, obrigado a lavar o sangue já pegajoso na calçada da rua, até os familiares que, constrangidos, calam-se ou apenas fingem para si mesmo que seu ente querido foi vítima de uma “tragédia”. (p. 70)

Habituado à formalidade das reportagens, Ruy desenvolve a narrativa em moldes concisos e praticamente impessoais; seus processos de elaboração do ocorrido geram até certo incômodo na medida em que ele discorre sobre o suicídio do próprio filho quase como se não fizesse realmente parte da situação, buscando certa distância de seus efeitos e das outras pessoas atravessadas pelo luto. Gradativamente, porém, mesmo a linguagem demasiadamente direta e um pouco áspera do texto é incapaz de dissimular o quanto a morte de Pedro o afeta, colocando-o a contragosto no olho do furacão para onde ele nos leva com seu relato, forjando um testemunho em tudo singular pela união de um acontecimento tão pungente a um desenvolvimento tão lúcido e honesto dos fatos, muitas vezes até impedindo que alguma simpatia de nossa parte chegue a um personagem tanto apático quanto desesperado. Tais particularidades estilísticas garantem ao romance certa fluidez inusitada, impedindo-o de decair no exagero dramático, ainda que respeite e considere a carga emocional que envolve a situação, num equilíbrio de composição que merece destaque.


E como o crocodilo que intitula a obra dialoga com isso tudo? Quando criança, Pedro ia ao zoológico com o pai e passava horas observando um crocodilo imenso e estático, que ele capturava em sua primeira câmera com um fascínio incompreensível por Ruy – tão incompreensível quanto a atitude do filho de acabar com a própria vida. A figura enigmática do réptil simboliza no romance o grande mistério filosófico do suicídio. Antes mesmo que o pai, “talvez ali Pedro tenha compreendido que algumas coisas são imutáveis, que simplesmente são como são e que, afinal, aquela era a natureza do crocodilo” (p. 31). Ruy segue pela mesma trilha de aprendizado com a partida do filho, embora de maneira muito mais doída, aceitando aos poucos e com rechaço que o suicídio faz parte da natureza de Pedro e, sendo como é, não há outra alternativa que não encontrar e respeitar nesse ato uma verdade – e não sua verdade, mas a verdade do outro, ciente de que muitas vezes só nos são dados os olhos do crocodilo, enquanto seu grande corpo se oculta sob a superfície, sustentando o visível acima dela.


Assista ao vídeo sobre o livro no canal do LiteraTamy:



Tamy Ghannam

Graduada em Letras (FFLCH- USP) e pesquisadora de narrativas brasileiras contemporâneas, é idealizadora do projeto multimídia LiteraTamy, que desde 2015 dispõe-se a difundir a literatura como prática revolucionária.


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